OS NOVOS POBRES

Marina da Silva

 

Os novos pobres ou precariado é a nova classe que vem ganhando força na Alemanha nos últimos anos. Precariado é um neologismo criado pela mídia alemã combinando de forma jocosa o termo proletariado com o atual fenômeno de precarização dos mercados de trabalho num dos países mais industrializado, rico, uma grande potência da UE_União Européia e do mundo. De acordo com o 2º Relatório de Pobreza e Riqueza do Ministério da Saúde e Exclusão Social (1998-2003), a Alemanha possui mais de ¼ de sua população na linha de pobreza: 13% da população vive na pobreza e necessita da ajuda governamental e 13% estão próximos desta linha. São considerados pobres todos aqueles cuja renda per capta é 781 euros. A pobreza dos alemães é incomparável com a do Brasil quantitativa e qualitativamente em qualquer grau, gênero ou número, mas assusta principalmente o fato de que o número de crianças pobres cresce mais rápido ali do que em qualquer dos 24 países industrializados. Relatório da Unicef em conjunto com o IRW-Instituto de pesquisa da Renânia–Westfália denuncia: uma em cada dez crianças vive em estado de pobreza relativa, ou seja, são obrigados a sobreviver com a metade da renda média da população; os mais  atingidos são os filhos de mães solteiras e crianças de famílias de pais estrangeiros _ neste grupo, a taxa de pobreza na última década pulou de 5% para 15%!

O fenômeno do precariado, isto é, alemães vivendo com cerca de 50% a 60% do mínimo social (1550 euros), se dá dentro do contexto da atual fase de acumulação de capitais: reestruturação produtiva com uso de tecnologias economizadoras de mão-de-obra e a dispersão geográfica da produção em busca de vantagens comparativas como: matérias primas e mão-de-obra barata, isenções fiscais; legislação trabalhista flexível ou inexistente; sindicalismo fraco; baixo crescimento industrial. Atualmente, o país convive com altas taxas de desemprego e expansão de formas precárias de trabalho (terceirizado, temporário, part-time, informal, imigrante ilegal).

1.5 milhões de jovens menores de 18 anos estão vivendo na pobreza; há 5 milhões desempregados; 11 milhões em risco de pobreza. Os novos pobres são baixa renda, sem casa e sem poupança e de acordo com jornal online Deutsche Welle se vêem como “perdedores e abandonados pelo Estado, percebem sua vida como uma ‘derrocada social’!

Vale ressaltar que, simultaneamente ao precariado, vem ocorrendo o aumento e concentração da renda no segmento dos 10% mais ricos. Atualmente, 47% da renda nacional, que em 2003 foi de 5 trilhões de euros, vai para essa faixa da população; a metade mais pobre fica com 4% da renda nacional e a classe média vive arrochada e ameaçada com a pobreza à porta. Como é o pobre no Brasil e na Alemanha?- pergunta o jornal. Como resolver tal problema? Querem saber os alemães sérios que rechaçam propostas cabeludas e indecentes apontadas por alguns políticos celerados do tipo:

Esta última proposta esbarra no trabalhador alemão, muito apegado a salário, jornada, estabilidade e que não perde, sem lutar, suas conquistas trabalhistas históricas com a mesma facilidade e/ou chantagens impostas pelos seus vizinhos Holanda, Suécia, Dinamarca a suas populações.

O que cria os novos pobres, todos sabem: os “defeitos” colaterais da competitividade na acumulação flexível de capitais; as geoestratégias econômicas e geopolíticas capitalistas no espaço mundial. Desemprego, baixos salários, precarização dos mercados de trabalho e das relações de trabalho, informalidade, concorrência por mão-de-obra barata dentro da UE, relocalização global das indústrias, baixo crescimento econômico. Para vencer a concorrência, vale tudo, até mesmo condenar à pobreza milhões de seres humanos. Mas pouco importa se os pobres da Alemanha são diferentes dos pobres do Brasil, da Índia ou Senegal; tanto faz se a pobreza lá é relativa ou absoluta, por que a pobreza é um sentimento universal e “miséria é miséria em qualquer canto”!