HAY DIAS...

 

- Hay dias que no sé lo que me pasa! - disse meu amigo.

Esperei que viesse uma descrição de algo parecido com a música do Vinicius de Morais, inspirada em poesia de Pablo Neruda. Segundo outra versão, o próprio Neruda disse ao Vinicius que, na verdade, a frase era de um tango e não de sua produção literária.

O que interessa mesmo é que meu amigo a usou com outro sentido.

Acordou de manhã com uma dor no braço, latente, sem razão conhecida, que iria acompanhá-lo nos dias seguintes. Um suplício!

Na ida ao trabalho, se lembrou que deveria ter pago uma conta qualquer no dia anterior. Por isso, só poderia pagar no banco que emitiu o boleto e que ficava completamente fora de mão de seus trajetos rotineiros.

No meio da tarde, resolveu dar uma escapada do trabalho para ir até o tal banco, cuja falta estacionamento e excesso de filas no caixa são de tirar a paciência de qualquer um.

Chegando ao estacionamento do seu trabalho, onde estava seu veículo, notou que havia sido fechado por outro, sem possibilidade para suas manobras de saída.

Procurou o irresponsável daqui, procurou o irresponsável dali, pensou em chamar o Detran, o tempo ia passando, o banco estava para fechar, até que apareceu o danado, pedindo desculpas e fazendo cara de vítima da falta de planejamento urbano.

Meu amigo, no limite da velocidade, foi ao banco e conseguiu estacionar em uma curva, de forma ilegal, mas sem atrapalhar ninguém, segundo ele.

Foi o último a entrar na agência e, também, foi o último da fila. Mas conseguiu fazer o pagamento com poucos juros e multas.

Ao sair, percebeu que outro carro havia raspado no pára-lama do seu, deixando alguns amassados e um pouco de tinta. Apenas um pequeno prejuízo, mas que, se quisesse recorrer ao funileiro, demandaria mais uma escapadela do trabalho, o que não lhe agradava, e mais alguns dias sem a sua confortável condução.

Digeridos os problemas durante o resto da tarde, foi para casa, pensando nas mensagens eletrônicas que deveria responder.

Depois de um banho relaxante, ligou o computador e, surpresa, uma mensagem na tela informava: “O Windows não pode ser inicializado (sic), pois o arquivo mcribundespro.pmy está corrompido”.

Que alegria! Passou a noite inteira tentando reinstalar o aplicativo, sem nenhum sucesso. Bem que seu filho havia aconselhado: - Pai, aposenta este Oscar Niemeyer!

No dia seguinte, uma sexta-feira, procurou alguma assistência técnica que pudesse fazer o serviço em sua ultrapassada “máquina de fazer doido 2”. A primeira é a televisão, segundo Sérgio Porto.

Enfim, encontrou um cristão que prometeu consertá-la e entregá-la no final da tarde ou no sábado de manhã.

No final da tarde de sexta, ligou para o consertador e ficou sabendo de uma dificuldade para o restabelecimento adequado: - “Doutor, tem quatro horas que está correndo o scandisk e nada de terminar. Pode ser que o disco rígido esteja bichado.”

Um frio percorreu sua espinha. Lembrou que não havia feito o backup, ou melhor, a cópia de segurança de alguns arquivos. Um com diversos cálculos e outro com muitas anotações de várias leituras dos últimos meses, destinados ao trabalho final de um curso de pós-graduação.

Pronto, já estava preparado para passar a noite em claro, rezando para que o menino da assistência técnica tivesse sucesso.

Orou também para os padroeiros do menino, fossem os santos que fossem, para que o cobrissem de bênçãos, dando-lhe clareza de raciocínio.

No sábado de manhã, rigorosamente na hora combinada, ligou para o futuro ídolo ou demônio, pois o estabelecimento da assistência técnica fecharia mais cedo, e recebeu uma notícia esperançosa: - “Doutor, estou terminando de reinstalar o Windows. Se der tudo certo, daqui a uma hora está pronto”.

O cara foi rezando com mais fé, pelos santos do moleque, e voltou com o computador íntegro e até mais rápido.

Ao chegar à sua casa, torceu o pé no degrau da escada (daquelas torcidas em que o tornozelo incha na hora) e entrou na sala mancando e se escorando pelas paredes, sem deixar o equipamento cair no chão.

Sua esposa, vendo sua boca sorrir e seus olhos chorarem, perguntou o que havia acontecido.

Sua resposta também foi contraditória: - Não houve nada, está tudo bem, meu amor! Eu só dei uma torcidinha no pé. Está doendo como o inferno, mas eu sou o homem mais feliz do mundo!

 

Sérgio Antunes de Freitas

16 de Julho de 2010